Quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

1. 5. Escadaria

 

 

            Na casa nobre lousadense há escadarias que revelam uma certa inquietude e infundem uma marcada ideia de movimento, outras “ostentam linhas severas, e outras revelam claramente a extravagância, a exuberância, a inquietação, (…).”594 No exterior, a escadaria adquire um maior desenvolvimento, chegando mesmo a ter “um papel primacial,”595 como sucede nas casas de Vila Verde, Renda, Juste, Argonça. Sobre a escadaria da casa de Juste, Carlos de Azevedo referiu: “ Revela inquietação e imprime uma acentuada noção de movimento. É curioso ver o choque da escadaria com a casa-esta definida pelo plano da fachada, estática e fixa à terra, aquela desenvolvendo-se em profundidade e caracterizada pela impressão de movimento." 596

               O acesso ao andar superior, faz-se normalmente, por uma escadaria exterior, em pedra. Persistem múltiplas combinações para assegurar o papel característico das escadarias como meio imprescindível entre dois ou mais andares. Também podem ter “funções simbólicas e processionais para assimilar a importância do movimento ascensional, e este efeito depende da largura, da inclinação e da altura.”597 É, pois, importante reflectir sobre a relação dinâmica da escadaria com o edifício e da inquietação que desperta.

            O patamar é por vezes alpendrado, como sucede nas casas da Bouça (Fachada Este), Cáscere (pátio interior), Juste (Fachada Sul), Lama (Fachada Norte e Oeste), Ronfe (Fachada Norte).

 

 

Quadro N.º 23 - Tipologias da escadaria da casa nobre do concelho de Lousada

 

 

Casa

 

 Escadaria

Argonça, Juste, Renda, Rio Moinhos e Real

Perpendicular à fachada, com patim

Alentém, Lama e Quintã

De um lanço e com patim

Bouça, Tapada

De dois lanços

Ribeiro, Ronfe, Seara, Valteiro, Seara

De dois lanços opostos

Porto

De três lanços e dois braços

Outeiro

De quatro lanços e dois braços

Vilela

 De dois sentidos

Pereiró

Em caracol       

 

1. 6. Varanda Alpendrada

 

Outro elemento arquitectónico que igualmente se destaca na fachada da casa nobre, nobilitando-a, é a varanda alpendrada.598 Plataforma avultando da fachada ao nível dos andares, unida à parede da casa, situa-se, preferencialmente no primeiro andar, embora também possa surgir no rés-do-chão. Estes lugares de abrigo franqueiam a constante relação entre o exterior e o interior que o clima permite. Por outro lado, respondem às exigências do campo: abrigar-se, secar, fiar, …. Passando a casa a estar mais aberta para o exterior, permitindo assim “a contemplação da natureza.” 599

 

________________________________

 

589 - FERREIRA-ALVES, Joaquim Jaime B. - o. c.,p. 16.

590 - FERREIRA-ALVES, Joaquim Jaime B. - o. c.,p. 16.

591 - AZEVEDO, Carlos de - o. c., p. 83.

592 - BURDEN, Ernest - Dicionário Ilustrado de Arquitectura. São Paulo: Bookman, 2002, p. 335.

593 - FAUVRELLE, Natália - Quintas do Douro. As Arquitecturas do Vinho do Porto. Cadernos da Revista Douro - Estudos Monográficos. Porto: GHEVID, 2001. p. 59. “Na arquitectura doméstica, porém, a decoração mostra-se sempre muito sóbria, e a casa nobre só muito mais tarde, na época barroca - isto é, em pleno século XVIII - vai empregar fachadas com decoração exuberante e nas quais voltaremos a ver motivos clássicos sujeitos a nova interpretação.” Cf. AZEVEDO, Carlos de - o. c., p. 70.

594 - AZEVEDO, Carlos de - o. c., p. 53.  CF. OLIVEIRA, Rosa Maria - o. c., p. 59.

595 - AZEVEDO, Carlos de - o. c., p. 72. 

                                                                                                            

Na casa nobre Lousadense a varanda alpendrada ou abre para um “pátio de entrada já no interior do edifício ou, se desenvolve para o exterior, adoptando proporções cenográficas,599 tal como acontece com as varandas das casas da Bouça, Vila Verde e de Juste. Ela é, pois, uma espécie de sala de visitas, sobressaindo em alguns casos, como já referimos, em relação ao resto do edifício, e é um elemento primordial, uma marca de singularidade, exibindo uma expressão acolhedora e proporções harmoniosas. Constitui a verdadeira entrada da casa. O seu pavimento é normalmente ladrilhado com tijoleira ou lajeado com granito. Do alpendre entra-se directamente para a sala ou salas.600

Como elemento portador de decoração, a varanda alpendrada “assume um papel simbólico e funcional.” 601 O efeito ornamental é obtido através da colocação de uma voluta no remate da guarda lateral (como ocorre nas casas da Lama, Ronfe, Vila Verde, e Bouça), e das colunas de granito, normalmente lisas. A varanda é assim, um elemento que sobressai do restante conjunto edificado.

Existem casas que devem a este simples elemento de circulação o factor inevitável da sua importância. Este espaço de ligação entre o interior e o exterior conferiu-lhe um prestígio acrescido. Assim acontece nas casas da Bouça, Juste, Lama, Real, Renda, Ribeiro, Ronfe, Valteiro, Vila Verde. 

 

1. 7. Torre

 

            Não há, no concelho de Lousada, casas-torre. As torres foram levantadas, em época recente, pelos antepassados dos actuais proprietários.602 Não existe, contudo, documento algum que relate tais actos construtivos. A torre era um elemento marcante. Primeiro por assumir uma configuração de “casa fortificada”603 para numa fase posterior aparecer como simples torre senhorial - mesmo que de princípio tenha tido utilidade militar nas campanhas da reconquista, logo foi fruída pela nobreza para alimentar rivalidades. Muitas foram edificadas de uma forma abusiva, tendo sido derrubadas por ordem do rei. As primeiras tinham dupla função: de habitação e defesa. Mesmo após o fim da reconquista continuaram a construir-se torres. Daí que muito rapidamente a torre se “converteu em mero símbolo senhorial, levantada com autorização do rei, no momento em que o suserano instituía privilégios da aristocracia às torres de certo fidalgo.604

A torre605 torna-se num elemento de afirmação senhorial, conferindo prestígio a quem a detém.

As torres do concelho de Lousada são compostas por grossos muros e apresentam escadarias adossadas, ainda que de altura relativamente modesta. São quadrangulares e possuem aberturas: frestas e janelas gradeadas, coroadas por ameias.

 

 

 

 

 

Quadro N.º 24 - Tipologias da torre da casa nobre do concelho de Lousada

 

 Casa

 

Torre

Casa do Outeiro606

 

Torre na fachada principal, à esquerda da escadaria

 

Casa do Ribeiro

 

Torre na fachada Sul, à direita do torreão, incorporada num outro corpo do edifício mais recuado

Valteiro

 

Torre na fachada Sul

 Casa de Ronfe607

 

 

Torre alinhada com a fachada Oeste

Bouça

 

Torre na fachada Norte da casa primitiva

 

 

            Em quatro destas torres funciona a cozinha, excepto na de Ronfe, na qual está a capela de St.º André, enquanto a do Outeiro mostra as armas de S. Francisco na face da fachada; e a do Ribeiro tem apenas funções decorativas.

 

________________________________   

596 - AZEVEDO, Carlos de, - o. c., p. 72.  Cf. COLE, Emily (Editor Geral) - A Gramática da Arquitectura. Lisboa: Centralivros, 2003. p. 330.

597 - “Similar a uma sacada, mas localizada ao nível do solo. Pode estender-se por um ou todos os lados da edificação.” BURDEN, Ernest - o. c., p. 337. Cf. “À saída da cozinha podemos encontrar também um pátio (…) ou um alpendre de pequenas dimensões.” FAUVRELLE, Natália - o. c., p. 60.

598 - Esta “ (…) nova solução arquitectónica, está directamente ligada ao esforço para abrir a casa para o exterior e para permitir a contemplação da natureza.”AZEVEDO, Carlos de - o. c., p. 72. Cf. COLE, Emily (Editor Geral) - o. c., p. 330.

599 - FAUVRELLE, Natália - o. c., p. 60.

 



publicado por José Carlos Silva às 20:36 | link do post | comentar

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