Terça-feira, 1 de Dezembro de 2009

A Casa Nobre332 no período tratado encontra-se dispersa por quinze freguesias, e para além do perímetro da Vila de Lousada, situando-se no “interior de uma quinta”333 murada, apresentando portão em ferro forjado adossado a colunas de granito encimadas por pináculos ou urnas fechadas; com alameda ladeada por árvores frondosas, de que são exemplo as casas da Bouça, Pereiró, Ronfe, Quintã, Juste e Cáscere. Existem casas que apresentam jardins com chafariz e estatuária, como a da Bouça, em buxo e de contorno geométrico, encontramos em Ronfe e Vila Verde; e de menor aparato: Alentém, Renda, Outeiro, Porto, Lama e Quintã.

No século XVIII, como já referimos, Lousada era um concelho “entre rios”: Sousa e Mesio. Este factor foi determinante para a implantação e expansão da casa nobre, que foi construída muito próxima destes rios.334 Partindo desta constatação, agrupamos as vinte e duas casas em dois grandes grupos: casas edificadas na área do Rio Sousa e Mesio.

 

 

Quadro N.º 20 - Casas Nobres do concelho de Lousada Edificadas na área dos Rios Sousa e Mesio

 

Casas edificadas na área do Rio Sousa

 

 

Casas edificadas na área do Rio Mesio

 

Casa Grande de Vilela (Aveleda), Casa da Seara (Caíde), Casa de Vila Verde (Caíde), Casa da Quintã (Caíde), Casa da Renda (Meinedo), Casa de Ronfe (Meinedo), Casa de Pereiró (Pias), Casa do Outeiro, (Nogueira), Casa da Bouça (Nogueira), Casa do Porto (Santa Margarida), Casa de Juste (Torno), Casa de Alentém (Vilar do Torno e Alentém).

    

Casa de Argonça (Ordem), Casa da Tapada (Casais), Casa de Rio de Moinhos (Covas), Casa do Valteiro (Sousela), Casa do Ribeiro (Sousela), Casa de Real (Ordem), Casa do Cáscere (Nespereira), Casa da Lama (Lodares), Casa do Cam (Nevogilde) e Casa de Valmesio (Nevogilde).

 

 

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332 - “Casas nobres chamamos às que tem logea, ou pateo, com aposentos capazes para huma família.” BLUTEAU, Rafael - Vocabulario Portuguez & Latino. Lisboa: Na Officina de Pascoal da Silva, 1716, tomo 5, p. 731.

333 - Guia de Portugal. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1991, vol. 1, p.67.

334 - Ver mapa na p. 90.

Como definimos anteriormente, vamos seguir dois itinerários: o primeiro, obriga-nos a percorrer a área ocupada pelas casas nobres situadas nas proximidades do Rio Sousa; e o segundo implica palmilhar o espaço das que se situam nas vizinhanças do Rio Mesio. Vamos procurá-las através destes dois percursos, percorrendo o concelho de Lousada, mas sem com isto pretendermos fazer um inventário, o que não é exequível devido à ausência de estudos neste campo.

Inicia-se na freguesia de Aveleda o percurso que nos levará a visitar o nosso objecto de estudo, que ao longo do tempo foi surgindo no espaço geográfico de Lousada. No lugar de Vilela, pós a ponte românica, surge a Casa Grande de Vilela, edificada a Este da Vila de Lousada, no lugar do mesmo nome. À esquerda da fachada Norte, está a capela de Nossa Senhora de Oliveira, destacada do edifício. Pertence esta quinta e casa a Maria Júlia Montenegro Geraldes Malheiro.

Deixando-a para trás dirigimo-nos para a freguesia de Caíde. No lugar da Seara, entre campos, vislumbra-se a Casa da Seara, com capela, de que é titular S. Miguel. Esta ostenta no lintel a seguinte inscrição: 1723. Em 1758 era de Luis Manuel Coelho de Calvos,335 e na actualidade, integra o domínio da Quinta de Vila Verde, de que é proprietária D. Maria Isabel Pinto Mesquita. Percorremos escassas centenas de metros, entrevendo a casa de Vila Verde, alcançando-a num ápice. Era uma das “principaes casas de Chaide336  em 1887.  Exibe uma capela destacada, da invocação de S. Sebastião. Uma escadaria de dois lanços opostos, com balaústres, pemite o acesso ao primeiro andar da fachada principal. A esta casa pertenceu o general Luís Pinto de Mesquita Carvalho, falecido em 1913.337

 

 

 

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335 - I. A. N. /T. T. Diccionario Geográfico.1758, vol. 8, fl. 208.

336 - VIEIRA, José Augusto - o. c., p. 364. A Casa de Vila Verde é Imóvel de Interesse Público desde 1978. (I. I. P., Decreto Nº 95/78 de 12/9). Cf. Património Classificado e Arquitectónico. Lisboa. Edição da Secretaria de Estado da Cultura, 1991, p. 22.

337 - SILVA, António Lambert Pereira da - o. c., p. 275. Cf. Deixou várias obras de referências: “A verdadeira situação militar de Portugal”, 1876; “O dolmem de Barroza”, 1898; “Estudos e Tácticas”, 1870, em dois volumes, entre outra vasta bibliografia. Cf. Lousada. Colectânea de Autores Locais. Lousada: Edição da Câmara Municipal de Lousada, vol. I, 2002, p. 89.

                  Ao sairmos pelo portão de ferro forjado338 lobrigamos o obelisco, situado no cimo da alameda. De Vila Verde à Casa da Quintã são pouco mais de mil metros. Esta casa está localizada no lugar da Quintã, apresentando capela integrada, de cujo titular é Nossa Senhora da Conceição. É propriedade de D. Maria José Norton Pacheco Geraldes Malheiro.

Não muito distante deste lugar, mas já na freguesia de Meinedo, situa-se a casa de Ronfe. Entra-se, a Norte, por um portal de ferro forjado, ali colocado em 1930,339 constituído por duas folhas e uma sobreporta, desenhado pelo então proprietário desta casa, José Rosas. Sendo arquitectonicamente formado por duas colunas de granito, em silharia, de aparelho regular, e encimadas por dois pináculos, o dito portal está inserido num muro, também ele comportando duas colunas de idênticas características, mas sobrelevadas por esferas de granito e triângulos.340 Percorremos uma alameda ladeada de frondoso arvoredo até depararmos com a casa de Ronfe. É uma casa com torre,341 adquirida por José Rosas a D. Maria Augusta Barreto Archer.342 Continuamos o primeiro percurso, ainda nesta freguesia. Podemos contemplar o verde dos seus campos, suspirar pela recuperação dos moinhos, edificados ao longo das margens do Rio Sousa, e deliciar-nos com a beleza que a paisagem nos oferece. Deixamos a casa de Ronfe para trás e podemos apreciar uma ou outra edificação, de traços mais nobres que ainda permanece: Vilar, Torrinha, Idanha, Estorãos, Caibral e a igreja românica, de 1262.343 À sua direita, fica a Casa da Renda. Podemos entrar para o seu terreiro, fronteiro à fachada principal, por dois portões diferentes, um a Sul, em chapa e ferro de recente data, que serve de entrada secundária, e outro, a Oeste, de ferro forjado, adossado a duas colunas quadrangulares em cantaria e muro rusticado, e que sempre serviu de entrada principal. Exibe uma escadaria perpendicular lançada contra a fachada principal, e pertence a António Eduardo Guerra Pereira.

Daqui saímos em direcção à Vila de Lousada, passando pelo antigo couto de Casais, hoje despojado da sua importância, restando o cruzeiro ainda erecto, a casa de Casais e umas alminhas. Nas proximidades do Rio Sousa vislumbramos a casa de Vila Pouca, e no lugar de Romariz, as casas de Além e da Ramada destacam-se na paisagem. Caminhamos para o lugar de Pereiró, situado na freguesia de S. Lourenço de Pias, a Sueste da Vila de Lousada, a pouco mais de três quilómetros da casa da Renda. Junto à estrada nacional, que liga a sede deste concelho à antiga Arrifana de Sousa, entrando por uma alameda de tílias, e percorrendo um caminho de terra batida, deparámos com a fachada principal da casa de Pereiró. Esta apresenta a capela de S. José integrada no topo direito. É sua proprietária D. Margarida Maria Pereira Teixeira Lopes de Azevedo e Menezes. A pouca distância encontra-se a casa da Torre, um cruzeiro e a capela de Nossa Senhora do Avelar, que é pública.

De Pereiró rumamos ao lugar do Outeiro, em Santa Cristina de Nogueira. Este trajecto leva-nos a calcorrear a estrada nacional em direcção à Vila de Lousada, com o seu núcleo central anichado aos pés da capela do Senhor dos Aflitos, esta sobre uma pequena colina que lhe alarga a área de protecção, e em que, disseminadas pelo velho casario, se vão misturando novas construções. Já dentro do seu perímetro surgem, em zona ainda rural, as casas do Pinheiro, Adega e do Carvalho. Na rectaguarda do edifício da Câmara Municipal podemos visualizar o pelourinho e a mais antiga rua de Lousada: St.º António. Do centro de Lousada ao lugar do Outeiro não são mais de dois quilómetros. A Casa do Outeiro está situada na freguesia de St.ª Cristina de Nogueira, no lugar do seu nome. Apresenta capela, da invocação de S. Francisco. É por um portal344 em madeira que acedemos a um largo terreiro fronteiro à sua fachada principal. Carlos Costa Lima de Sousa Guedes é o proprietário da Quinta e Casa do Outeiro.

Nesta mesma freguesia, no lugar da Bouça, encontramos a Casa da Bouça. Entramos por um portal alpendrado,345 caminhamos por uma alameda, em terra batida, e após algumas dezenas de metros percorridos, deparamos com um amplo terreiro, fronteiro à fachada principal, virada a Sul, e um chafariz.346 Exibe uma capela, cujo titular é St.º António. O actual proprietário é o Dr. João Cabral. Próximo da casa da Bouça, mas já na freguesia de Santa Margarida, fica “o palacete do Porto.347 É por um portal de ferro forjado, datado de 1862,348 formado por quatro folhas, duas delas muito estreitas e fixas, além da sobreporta, com duas colunas fasciculadas e meias colunas adossadas, em silharia, de fiadas regulares, que nos conduz à Casa do Porto. A capela é da invocação do Sagrado Coração de Maria, e o seu proprietário é João Maria Cabral Peixoto Magalhães.

Largamos a Casa do Porto e rumamos à freguesia do Torno. Na margem direita do rio Sousa, acha-se a Casa de Juste, que não tem portal de entrada, mas tão só duas colunas a que deveria estar adossado; as colunas são em granito e encimadas por merlões chanfrados. Percorre-se um curto caminho, em terra batida, que nos leva ao terreiro fronteiro da fachada principal. Pertence a D. Ana Amélia de Abreu e Couto Osório Guedes. A poucas centenas de metros da Casa de Juste, situa-se o “palacio d’ Alentem,349 que “ é absolutamente a primeira casa d’ esta freguezia,350 e que fica na margem direita do Rio Sousa. Entra-se nesta casa por um portal de ferro forjado, do séc. XIX,351 constituído por duas folhas e uma sobreporta de grade de ferro ornamentada; do ponto de vista arquitectónico, é formado por dois grossos pilares de granito, decorados no topo com franjas esculpidas na própria pedra. Lateralmente, junto à estrada, há um outro portal, da mesma época, em ferro fundido com duas folhas de chapa, decoradas com vários ornatos geométricos, e nos painéis inferiores um friso com pequenas réguas na vertical, estando adossado a duas colunas embebidas em granito.352 Foi a primitiva e principal entrada desta casa, e é-o na actualidade. A quinta e casa de Alentém são pertença de Armando Augusto Freire de Queirós.

 

 

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338 - O portal da Casa de Vila Verde é do séc. XIX, sem datação, de ferro forjado, com duas folhas e sobreporta. Do ponto de vista arquitectónico a sua estrutura é de pedra e as duas colunas encontram-se adossadas à parede de um muro, o qual tem uma moldura de granito trabalhado, e os capitéis das colunas são encimados por floreiras. OLIVEIRA, Rosa Maria - Portões e Fontes do Concelho de Lousada. Lousada: Edição da Câmara de Lousada, 2003, p. 40.

339 - OLIVEIRA, Rosa Maria - o. c., p. 75.

340 - OLIVEIRA, Rosa Maria - o. c., p. 75.

341 - Os herdeiros afirmam que a capela se encontram no interior da torre.

342 - Presidentes da Câmara Municipal de Lousada Desde 1838 até 1900, p. 11.

343 - Guia - Lousaada: Edição da Câmara Municipal de Lousada, 2007, p. 10.

344 - O portal desta casa é do “ (…) séc. XVI, (1570). É um portal quinhentista de granito em que a

técnica utilizada foi a de silharia, de fiadas regulares. O portão é de madeira, com moldura de granito em cantaria, a qual termina com um frontão encimado por dois pináculos pontiagudos.” OLIVEIRA, Rosa Maria - o. c., p. 117.

345 - OLIVEIRA, Rosa Maria - o. c., p. 99.

346 -“De cantaria fina com um pé direito que termina num pináculo com ponta em esfera, e ao longo do seu tronco encontram-se bicas, com feitio de rosetas, por onde sai água, a qual cai para uma taça e desta para um tanque de formas redondas.OLIVEIRA, Rosa Maria -  o. c., p. 102.

347 - VIEIRA, José Augusto - o. c., p. 358.

348 - OLIVEIRA, Rosa - o. c., p. 63.

349 - VIEIRA, José Augusto - o. c., p. 364.

350 - VIEIRA, José Augusto - o. c., p. 364.

351 - OLIVEIRA, Rosa - o. c., p. 144.

352 - OLIVEIRA, Rosa - o. c., p. 144.

                Concluído o primeiro trajecto, o segundo tem o seu prelúdio na Casa de Argonça, situada no Vale que recebeu o nome do rio que o serpenteia, o Mesio, e à esquerda deste, na freguesia da Ordem. É um portal em ferro forjado, adossado a duas colunas de granito, em cantaria, que permite o acesso a esta casa. Percorre-se um caminho em alcatrão até depararmos com quatro estatuetas representativas das estações do ano,353 e só depois vislumbramos o terreiro e a fachada principal. É seu proprietário Vítor Manuel Saldanha Lobo. Depois de Argonça, no lugar de Real, e logo que termina a Avenida da Igreja, tropeçamos num portão de ferro forjado adossado a duas colunas de cantaria, coroadas por duas bolas de pedra, que permite o acesso à Casa de Real. Casa com capela, de que é titular Nossa Senhora das Mercês. É propriedade de D. Maria Fernanda Malheiro Guedes Quinhones de Portugal da Silveira.

            Da Casa de Real descortina-se a Casa do Ribeiro, situada na freguesia de Sousela. Um portal de duas folhas, adossado a duas colunas com capitéis decorados com duas meias volutas,354 permite o acesso ao terreiro fronteiro à fachada principal. Ostenta capela com invocação de Santa Isabel. D. Isabel Maria Coelho Leal de Sousa Meireles foi a última proprietária da quinta e casa do Ribeiro, pertencendo no momento à Santa Casa da Misericórdia de Lousada. A Norte, nesta mesma freguesia de Sousela, fica a Casa do Valteiro. Ultrapassado um portal de 1858,355 constituído por duas colunas quadrangulares, sobrelevadas por pequenos frontões encimados por vasos

abertos, deparamos com um terreiro fronteiro à fachada principal desta casa; com capela, cujo titular é S. Torcato. A quinta e casa do Valteiro são pertença de D. Maria Gonçalves Costa de Saraiva de Castilho e Maria Helena Costa de Castilho Coimbra de Matos. Da Casa do Valteiro ao sopé do monte do Amparo, local onde foi edificada a Casa de Rio de Moinhos, curta é a distância, mas a freguesia é já outra, Covas. Acede-se por um portão de idêntica tipologia ao da casa de Vila Verde, que é de ferro forjado e permite a passagem para um amplo terreiro quadrangular, fechado, com outros dois pequenos portões, também de ferro forjado, um a Norte e outro a Sul.

                  Casa com capela, da invocação de Nossa Senhora da Vida. Actualmente D. Maria Antónia Bacelar de Ataíde Pavão é proprietária da Quinta e Casa de Rio de Moinhos. Desta casa vislumbra-se a capela de Nossa Senhora do Amparo, no alto do monte, da titular que lhe deu o nome; e mais abaixo a igreja paroquial. Merecem referência as casas do Penedo, Covas, Sub-Ribas, Monte Belo, Monte-Sines e Rio Falcão.

Continuamos este itinerário, para encontrar, na margem direita do rio Mesio, a casa do Cam, no lugar do Campo,356 freguesia de Nevogilde. Entra-se nesta casa por dois locais diferentes e opostos: um a Este, por um portal de ferro fundido, com duas folhas de chapa decoradas com elementos florais rematados com varas na vertical (em termos arquitectónicos, faz parte de uma parede de silharia, de fiadas regulares, assim como o entablamento);357 outro, a Sudoeste, em ferro forjado e chapa, adossado a duas colunas em granito abrindo caminho para uma alameda até outro portão em chapa, que nos permite finalmente o acesso a um pátio fechado. É uma casa com capela, da invocação de Nossa Senhora de Bom Sucesso. Pertence a José Maria de Freitas de Sousa Lopes. Podemos percorrer a pé as poucas centenas de metros que nos separam da casa de Valmesio, que se situa mais a sul, mas ainda em Nevogilde. Nela podemos aceder por dois portais que se encontram à face da estrada nacional. O primeiro, à esquerda, dos princípios do século XX,358 de ferro fundido, de duas folhas, é formado por réguas na vertical e na horizontal, tendo a parte inferior das folhas um desenho em forma de quadrados, e está adossado a duas colunas de granito. À direita, outro portão, semelhante ao anterior, por onde nos dias de hoje se faz a entrada, apesar de durante decénios, o acesso ter sido feito pelo portal situado a Este.359 É uma casa com capela, cujo titular é Santa Ana. É domínio de D. Cecília Soares de Moura.

                  A Norte da casa de Valmesio, na freguesia de Casais, situada na margem direita do Rio Mesio, junto à estrada nacional, surge a casa da Tapada. Nossa Senhora da Piedade é a titular da capela, que a casa exibe. É propriedade da Lacticínios Halos. S.A., pertença de Luís Paulo Henriques da Silva e dos Engenheiros Pedro Gabriel Belles Leiria Nunes, Vasco de Sousa Barbeiro e Mário de Oliveira Morais. Desta casa podemos presenciar o Vale do Mesio, o rio do mesmo nome, os moinhos esquecidos à espera que lhe dêem uma nova vida, as casas do Recanto e de Lagoas, o aqueduto, a ponte de Nevogilde, sem cronologia certa, as torres sineiras das igrejas de Covas, Casais, Nevogilde e a capela de Nossa Senhora da Ajuda, que é pública.

Rumamos em direcção à freguesia de Nespereira. Pelo caminho tropeçamos em cruzeiros, nichos e alminhas. Nesta freguesia, rodeada por um frondoso bosque, fica a casa do Cáscere, à qual se acede por um caminho de terra batida que nos conduz a um terreiro fronteiro à fachada principal. Ostenta uma capela, que tem como titular Nossa Senhora do Amparo. A quinta e casa do Cáscere pertencem a António Basílio Pimentel Carneiro Leão.

            A Sul, relativamente próximo do Cáscere, situa-se a casa da Lama, na freguesia de Lodares, face à estrada nacional. Pode entrar-se por dois portões, a Este, sendo que o primeiro360 dá acesso ao terreiro fronteiro à fachada Norte da capela e à fachada Oeste da casa; o segundo,361 permite a passagem para o jardim e é actualmente a entrada nobre desta residência. Adossada ao topo esquerdo da fachada principal encontra-se a capela de Santa Ana. O Coronel Augusto Cândido Pinto Coelho Soares de Moura é o proprietário da quinta e casa da Lama.

 

1. 2. Definição

 

            O Concelho de Lousada no séc. XVIII, conheceu, dentro do dinamismo da arquictetura civil, a afirmação da casa nobre. Na Rua do Torrão, actual Rua de Santo António, e a mais antiga da Vila de Lousada, não se edificou um grande número de casas nobres. Hoje, a maioria, desempenha funções diversas (Câmara Municipal, infantário, drogarias, centros comerciais, cafés, bares, Jardins de Infância e restaurantes) e, indiferentes às razões para que foram projectadas, não passam de reminiscências. É para além do perímetro, primeiro da Rua do Torrão - depois Vila de Lousada - que se vai edificar a casa nobre do século XVIII.

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353 - Segundo os Senhores de Argonça, em meados do século vinte, as estatuetas que representam as quatro estações do ano, foram trasladadas do portal da entrada para o portal do terreiro da casa, para evitar o seu furto. Cf. vol. II, p. 22.

354 - OLIVEIRA, Rosa Maria - o. c., p. 127.

355 - OLIVEIRA, Rosa Maria - o. c., p. 129.

356 - O antigo topónimo era Cam, e deu o nome a esta casa. A. D.P., Secção Notarial, Po-1, 1ª Série, Livro n.º 49, 1807, fl. 18v.

357 - OLIVEIRA, Rosa Maria - o. c., p. 94.

358 – Informação de D. Cecília Soares de Moura. Cf. OLIVEIRA, Rosa Maria - o. c., p. 96.

359 - Segundo a proprietária desta casa, D. Cecília Soares de Moura. Cf. OLIVEIRA, Rosa Maria - o. c., p. 96.

360 - “Este portal localiza-se no lado esquerdo da Capela da Lama, e foi durante algumas gerações, a entrada principal da casa. Do ponto de vista arquitectónico é formado por quatro colunas adossadas e encimadas por pináculos pontiagudos, que datam de 1988, foram mandados colocar pelo actual proprietário, e têm os laterais mais baixos que os centrais. A técnica utilizada foi a de silharia, de aparelho regular. A parede entre colunas é de cimento pintado de branco.” OLIVEIRA, Rosa Oliveira - o. c. , p. 58 - 59.

            Não há no concelho de Lousada qualquer casa-torre. Existem casas com torres, não datadas. De que são exemplo as casas da Bouça, Ribeiro, Ronfe, Outeiro e Valteiro. Alguns proprietários destas casas, afirmaram que as torres foram edificadas ao longo do séc. XIX.362

            A casa nobre363 lousadense do século XVIII insere-se nas características definidas por Carlos de Azevedo e adoptadas por Joaquim Jaime B. Ferreira-Alves para a casa nobre em geral, na sua obra: “ A Casa Nobre No Porto Na Época Moderna.” Os aspectos que a definem centram-se: “no esforço arquitectónico e decorativo concentrado na fachada; no desenvolvimento horizontal, criando longas fachadas, articuladas com pilastras lisas pouco salientes, e acentuadas, sobre os telhados, por ornatos (urnas, fogaréus e pináculos); na existência de um piso dominante, o andar nobre, com janelas «quase sempre mais ricas do que no andar térreo»; na acentuação da linha superior do edifício (emprego de frontões); na importância da entrada nobre, «enriquecida com colunas e pilastras», sustentando «balcão com parapeito ou simples grade, continuada por uma janela central de tipo mais rico e rematada pelo brasão de armas da família», criando-se assim um eixo vertical que divide a fachada em duas zonas iguais (…).”364A casa nobre no concelho de Lousada é, igualmente, definida por “fachadas rasgadas por janelas de sacada e janelas de peitoril, com ombreiras, peitoris e lintéis lisos. As portadas são também simples.”365 É esta a forma que iremos ver na casa de Argonça, Cam. Na escadaria interior e exterior há “um «maior desenvolvimento» e variedade, aparecendo no interior das casas caixas de escada, de arquitectura cuidada, onde surgem escadarias de lanços convergentes e divergentes a partir de patamares. (…).”366 As escadarias setecentistas lousadenses exibem modelos muito interessantes, como a da casa da Bouça, Juste, Lama, Outeiro, Real, Renda, Ribeiro, Rio Moinhos, Valteiro e Vila Verde.

            A casa com capela integrada na fachada desenvolve-se durante o século de setecentos e ganha uma expressão muito própria. As Casas do Valteiro, de Real, e do Ribeiro, são alguns exemplos. Na casa nobre lousadense há um grande número de casas com capelas adossadas à direita ou à esquerda da fachada. Em contrapartida, poucas são as casas isentas de capelas ou com capelas isoladas.

            De salientar também que nem todas as casas possuem pedra de armas na fachada principal ou em qualquer outra.

            As diferentes características permitem criar tipologias, que terão o seu devido tratamento no terceiro capítulo.

           Enquadrada na ideia apresentada por Anne Stoop, na sua obra: “Palácios e Casas Senhoriais do Minho”, as casas nobres de Lousada eram “aristocráticas e muitas vezes tiveram que ser construídas por “fases a fim de abrigarem as sucessivas gerações367 e por isso foram-se “modificando segundo as necessidades e disponibilidades financeiras de momento.368

            Em síntese, na casa nobre lousadense, no séc. XVIII, assistimos ao desenvolvimento das fachadas principais e vemos enriquecerem-se as janelas e as portadas com decoração envolvente, assim como o aparecimento de frontões para exibição da pedra de armas, como acontece nas casas da Bouça, do Porto, de Ronfe. E é necessário realçar outro aspecto fulcral da história destas casas: foram ao longo dos séculos o berço onde nasceram, se criaram e educaram grandes figuras da igreja e do governo do concelho de Lousada, da diocese do Porto, tendo alguns logrado atingir altos cargos ou dignidades nos destinos do Reino: em Lisboa, como deputado, o Conde

de Alentém foi disso exemplo. Destas casas nobres brotaram, tanto nas armas como nas letras, padres, dignitários da igreja, membros de ordens religiosas, militares, administradores concelhios e governadores civis, deputados, Cavaleiros da Ordem de Cristo, Bispos, professores e reitores de universidades, sargentos e capitães-mores de ordenanças, notários, escrivães, juízes do crime, cível e órfãos. Representaram ainda a assistência social e educacional da população vizinha, quando habitadas em permanência pelas antigas famílias.369

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361 - “Um muro de granito -, rodeia o jardim -, com aparelho de fiadas regulares, que tem sete colunas, coroadas por urnas fechadas. Sendo quatro delas pertencentes a dois portais. Estes são em ferro fundido com duas folhas, e a parte inferior de cada portal é em chapa e em ferro, com rosetas. Foi D. Maria Alice Castro Neves Pinto Garcês que desenhou os portais, os gradeamentos e o muro, e mandou executar o projecto.” OLIVEIRA, Rosa Oliveira - o. c., p. 59.

362 - Informação do Dr. João Cabral, da Casa da Bouça e Carlos Costa Lima de Sousa Guedes, da Casa do Outeiro.

363 - BLUTEAU, Rafael - Vocabulario Portuguez & Latino. Lisboa: Na Officina de Pascoal da Silva, 1716, tomo 5, p. 731.

364 - FERREIRA-ALVES, Joaquim Jaime B. - o. c., p. 15-16. CF. AZEVEDO, Carlos de - o. c., p. 19. Cf; STOOP, Anne - o. c., p. 12.

365 - FERREIRA-ALVES, Joaquim Jaime B. - o. c., p. 15-16. CF. AZEVEDO, Carlos de - o. c., p. 19.

 



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