Domingo, 20 de Dezembro de 2009

          Para o estudo tipológico das casas nobres lousadenses, ponderámos a “análise, descrição e classificação577 das fachadas na sua perspectiva de composição arquitectónica.

A definição das tipologias foi estruturada a partir do estudo objectivo dos conjuntos edificados (acarretando diversos reconhecimentos ao local onde estão levantadas).

Em primeiro lugar considerámos os elementos estruturais, aqueles que estruturam a fachada, permitindo-lhe a dimensão real: vãos de portas, janelas, postigos, frestas, óculos, e respectivos emolduramentos, etc. Foram também considerados os elementos identificativos e decorativos, [estes são elementares], que por si só permitem mais do que uma tipologia. Cada um destes elementos pode ser concomitantemente estrutural, decorativo e identificativo. Estrutural, dado que faz parte integrante da densidade edificante da casa; decorativo, porque concorre para o embricamento do conjunto; e identificativo, já que permite identificar um determinado estatuto social e cultural, irradiam formas de pensar e de ser. Como recorda Natália Fauvrelle: “Os elementos que decoram os edifícios de uma quinta, além do seu conteúdo estético, reflectem de forma inequívoca um gosto pessoal e os valores culturais, espirituais e psicológicos da sociedade em que se inserem.578

      Um elemento ainda pode ser, conjuntamente, identificativo e decorativo. Daí que esta arrumação é simplesmente funcional; analisa os elementos constituintes das fachadas de maneira objectiva procurando sistematizar as virtualidades de cada um deles, e presta-se particularmente para chamar a atenção do facto de “nenhuma abordagem do objecto plástico poder ser feita (desde que se procure ultrapassar a simples identificação estilística e integração serial), se não houver a preocupação de compreender «por dentro» e de forma tão radical quanto possível.579

     As casas nobres setecentistas do concelho de Lousada, exibem duas tendências distintas: umas mais simples, seguem um padrão “ maneirista,580 como acontece com as Casas de Argonça e do Cam; e outras, de desenho mais elaborado, mostram maior diversidade, empenhando-se particularmente na profusão decorativa. Disto sendo exemplo as Casas da Bouça, Porto, Rio de Moinhos e Ronfe, Tapada e Vila Verde. Para Nelson Correia Borges os aspectos ornamentais sobrepõem-se à originalidade das plantas: “o aspecto de maior interesse reside sempre na decoração,”581 Mas tal profusão não é consequência apenas da acumulação de ornatos, mas nomeadamente de um certo número de factores: os elementos edificantes tornaram-se mais dinâmicos (as pilastras separam os panos das fachadas em várias secções, assinalando ritmos, as cornijas ondulam-se, evidencia-se o movimento ascensional dos frontões; e as silharias cinzeladas e as almofadas dos vãos e dos cunhais enobrecem o conjunto), assim como a plasticidade dos ornatos da pedra de armas. Tudo isto confere à fachada uma identidade muio própria. Consequentemente, as fachadas são não raras vezes o que de mais admirável apresentam, concentrando-se aí todo o esforço arquitectónico e decorativo do conjunto edificado.

 

1.2. Planta

 

Desconhece-se se a casa nobre obedeceu a um plano previamente definido, tendo-se adaptado a cada momento da vida dos seus proprietários. Não há um padrão comum entre as diferentes casas que estudámos. Todas têm os espaços agregados ao seu funcionamento básico ou à relevância da sua imagem.

 

 

 

 

 

 

 

 

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576 - “Designação usada em arquitectura que relaciona a forma do edifício com a sua função.” SILVA, Jorge Henrique Pais; CALADO, Margarida - Dicionário de Termos de Arte e Arquitectura. Lisboa: Editorial Presença, 2005, p. 137. Cf. TEIXEIRA, Luís Manuel – o. c. p. 217; Dicionário Enciclopédico Koogan - o. c., p. 861; “Es un fundamento epistemológico que parte de la consuderació de la arquitectura como ciência, basándose em soluciones preexistentes, codificadas que, supuestamente, se aplicarian mecânica y directamente para solucionar problemas funcionales.” http://www.todoarquitectura.com

577 - RODRIGUES, Maria João Madeira; SOUSA, Pedro Fialho de; Horácio Manuel Pereira -Vocabulário Técnico e Critico de Arquitectura. 3ª Edição. Lisboa: Quimera Editores, 2002, p. 259.

578 - FRAUVELLE, Natália - o. c., p. 59.

579 - ALCOFORADO, Diogo - A Igreja dos Terceiros do Carmo: Contribuição para uma leitura da sua fachada. Separata da Revista de História. Porto: Edição do Centro de História da Universidade do Porto. vol. III. 1979, p. 5.

580 - AZEVEDO, Carlos - o. c., p. 82.

581- BORGES, Nelson Correia - Do Rococó ao Barroco. História da Arte em Portugal. 2ª ed. Lisboa: Publicações Alfa. vol. 9,1993, p. 39.

 

Há pois, uma ausência de modelo, sendo todo o conjunto edificado sujeito às necessidades do proprietário.

As plantas a que tivemos acesso foram as das casas da Lama e Tapada. Datam ambas dos anos setenta do século vinte. Não encontrámos documentos desta natureza, nem de épocas mais recuadas, muito menos do séc. XVIII.  

Ao longo de toda a investigação contactámos com os proprietários das casas, concluindo que estas foram sofrendo sucessivos acrescentos, por imperativos vários: ora pelo crescimento da família ora por mera afirmação e ostentação social.

Ao nível da planta, a casa nobre lousadense foi evoluindo conforme o momento, as necessidades e as disponibilidades financeiras. Acontece, por vezes, que ao corpo do primeiro edíficio foi acrescentado outro, formando um L: assim a casa do Outeiro, do Cáscere e do Porto, mantendo-se, no entanto, o pátio por onde passava toda a vida da quinta e da casa. A configuração da planta topográfica da casa do Outeiro é muito curiosa: a edificação - do pátio interior - assemela-se a um trapézio, enquanto a parte restante tem a forma de um L. A fachada Sul da casa, do lado terreiro,  foi levantada em pleno século XIX e no alvorecer do século XX, o pai do actual proprietário manda construir a fachada Este, adossando-a à capela. Daí ter surgido uma casa com planta em L e capela adossada ao topo esquerdo da fachada Este, com pátio interior na fachada Norte.

Ao corpo principal da casa do Cáscere foi-lhe acrescentado um outro corpo, à esquerda, e adossado à capela. Mais tarde, esta viria a perder as funções de culto, tendo outra capela sido construída no prolongamento da fachada principal. Irrompe uma casa com planta do tipo L e capela no topo direito da fachada principal.

Ao primitivo corpo da casa do Porto foi-lhe acrescentado um outro, para o lado da capela. Resultou uma casa com planta em L e capela integrada à fachada principal, no topo esquerdo.

A planta em U visa a teatralização da fachada, procurando conseguir um enorme efeito cenográfico, com a criação de uma sequência espacial entre o interior e o exterior. Para Carlos de Azevedo “É sobretudo nas casas de planta em U que vamos encontrar uma concepção ordenada e lógica e um rigor até então desconhecidos.”582

 

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582 - AZEVEDO, Carlos de - o. c., p. 81.

 

 

Este tipo de planta não é muito frequente no concelho de Lousada. Podemos observá-la apenas nas casas de Rio de Moinhos e de Vilela (Casa Grande). A primeira tem um amplo terreiro, fronteiro à fachada principal, fechado por portões. Ao corpo primitivo, foi adicionado, em data e época incertas, outro corpo que se adossou à capela. Evidencia-se, pois, uma casa com planta em U e capela, formando um ângulo recto no topo da fachada Oeste.

 A casa Grande de Vilela apresenta um tipo de planta em U, como foi documentado. Apesar de todas as alterações introduzidas, mantém o mesmo tipo de planta e a mesma relação com a capela: destacada.                                                               

A planta do tipo quadrangular é muito frequente no concelho de Lousada. Doze são as casas que a exibem: Alentém, Bouça, Juste, Lama, Real, Ribeiro, Ronfe, Renda, Quintã, Seara, Valmesio, Vila Verde. De referir que é a casa quadrangular com capela adossada/integrada ao topo da fachada direita ou esquerda o tipo de casa nobre mais frequente no concelho de Lousada que “se desenvolve durante o século de Setecentos583 e na qual se coloca um cuidado particular na “organização das fachadas, que se desenvolvem num plano único e horizontalmente.584

A primeira casa foi objecto de um programa de restauro no final do século XIX, como já foi mencionado e que lhe deu, provavelmente a actual configuração. A fachada Este foi adossada à capela. Redundou numa planta do tipo quadrangular, com capela no topo direito da fachada Este.

Na primitiva edificação, da Bouça, foram feitas sucessivas adições, em épocas diferentes. Em meados do mesmo século XIX a fachada Oeste é edificada e adossada à capela, sendo a torre erigida no século XX. É uma casa quadrangular com capela adossada/integrada no extremo Oeste e torre a Norte.

A terceira casa exibe um pátio exterior. A fachada Norte, no topo esquerdo, foi adossada à capela, originando um ângulo de noventa graus. É considerada, por Carlos Azevedo, uma casa de “planta muito simples, quadrangular,585 com capela adossada à fachada Norte, formando um ângulo de noventa graus.

 

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583 - AZEVEDO, Carlos de - o. c., p. 81.

584 - AZEVEDO, Carlos de - o. c., p. 81.

585 - AZEVEDO, Carlos de - o. c., p. 81.

 

 

 



publicado por José Carlos Silva às 12:29 | link do post | comentar

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