Domingo, 20 de Dezembro de 2009

1. 3. Fachada

              

O espaço patenteado elege uma área única para a capacidade arquitectónica, onde se revelam diversos jogos de composição entre os elementos estruturais e decorativos.

Fachada, é a “face do edifício, constituindo o elemento mais mediático de toda a construção.587 Ela é, numa análise redutora, o resultado final correspondente a esse acto criativo, onde o criador se exibe, dado que será a única referência visual, enquadrada na paisagem do dia-a-dia das pessoas que a contactam.

Observar uma fachada e procurar compreendê-la, da mesma forma que ler um poema e ficar a conhecer a sua mensagem, não é tarefa fácil. Por isso, tal como um poema nos dá prazer, a contemplação de uma fachada “pode deliciar quem seja sensível à arte da Arquitectura e consiga ultrapassar a mera constatação de um mero número de x pilastras, um número y de portas e janelas e um número z de volutas e cornijas.”588 Ela é, entre todas as partes da concepção dos elementos constitutivos do uno a edificar, uma das mais difíceis de concretizar. A operação de a delinear foi, é e será sempre uma das ocasiões mais inabalavelmente rigorosas do acto de construir, sem esquecer a mais valia dos outros componentes.

               A casa nobre lousadense do século XVIII insere-se nas características que Carlos de Azevedo refere para a casa nobre portuguesa em geral e que Joaquim Jaime B. Ferreira-Alves adoptou. As características que a particularizam resumem-se: “no esforço arquitectónico e decorativo concentrado na fachada; no desenvolvimento horizontal, criando longas fachadas, articuladas com pilastras lisas pouco salientes, e acentuadas, sobre os telhados, por ornatos (urnas, fogaréus, e pináculos); na existência de um piso dominante; o andar nobre, com janelas «quase sempre mais ricas do que no andar térreo»; na acentuação da linha superior do edifício (emprego de frontões); na importância da entrada nobre, «enriquecida com colunas e pilastras», sustentando «balcão com parapeito ou simples grade, continuada por uma janela central de tipo mais rico e rematada pelo brasão de armas da família», criando-se assim um eixo vertical que divide a fachada em duas zonas iguais.589 De que são exemplo as casas da Bouça, Ronfe e Porto. E ainda há fachadas rasgadas por “janelas de sacada e janelas de peitoril, com ombreiras, peitoris e lintéis lisos. As portadas são também simples590 - que podemos encontrar nas casas de Argonça, Cam e Cáscere.

As casas de Alentém, Bouça, Porto e Ronfe exibem fachadas muito semelhantes, apresentando frontão triangular e exibindo no tímpano a pedra de armas.

Na casa do Valteiro é visível uma fachada equilibrada e simétrica, com a entrada principal a servir de eixo de composição. Nas duas primeiras casas, as capelas não perturbam a composição, sujeitando-se tanto quanto possível “ às linhas da fachada e repetindo elementos desta - portas e janelas.” 591 Na casa do Valteiro esta asserção é uma evidência: do lado direito a capela e do esquerdo o terceiro corpo é rematado por um frontão.

 

 

 

 

Quadro N.º 22 - Tipologias das fachadas da casa nobre do concelho de Lousada

 

 

Fachada

 

Casa

Dividida, verticalmente, por duas pilastras, em três zonas que criaram dois panos simétricos.

Com frontispício.

Alentém, Bouça, Porto e Ronfe

 

 

Dividida, verticalmente, por duas pilastras, em três zonas, que criaram dois panos simétricos que flanqueiam um pano central.

 Sem frontíspicio.

Real, Ribeiro e Valteiro

 

 

 

Dividida, verticalmente, por duas pilastras, em três corpos.

Rio de Moinhos

 Dividida em três corpos.

Lama, Pereiró e Vila Verde

 Dividida, verticalmente, por pilastras, que criaram duas zonas e três panos, desiguais.

Vilela

 

 

Com capela integrada no topo esquerdo, e janelas de sacada de lintel curvilíneo, molduradas - no rés-do-chão e andar nobre.

Valmesio

 

Com portal moldurado e torreão na parte central

Tapada

De um só pano.

Argonça, Cáscere, Juste, Quintã e Renda

Com escadaria de quatro lanços e dois braços e capela adossada.

Outeiro

Dividida, verticalmente, por uma pilastra, criando dois panos, assimétricos.

 

Cam

 

1. 4. Vãos

 

Para Ernest Burden, vão é o “compartimento ou divisão principal da organização arquitectónica de uma edificação, marcada por contrafortes ou pilastras nas paredes, pela repetição de qualquer unidade espacial que divida a edificação em porções correspondentes.592 Os vãos concentram o maior esforço decorativo, em especial os da porta. Portanto, de acordo com o grau de ostentação que se pretende imprimir à fachada, e à presença de elementos como a varanda alpendrada, pedra de armas, torre, escadaria e capela, acontece um tratamento mais cuidado dos vãos e das suas molduras. Estas podem tomar formas mais complexas: as ombreiras prolongam-se no remate inferior e o perfil da verga estende-se sobre as ombreiras, como as da casa de Vila Verde, Tapada e Real sendo até algumas enriquecidas com motivos esculpidos, como acontece na casa de Juste. Neste contexto, Natália Fauvrelle sustenta que os elementos e as formas que “ornamentam os edifícios de uma quinta, além do seu conteúdo estético, reflectem de forma inequívoca um gosto pessoal e os valores culturais, espirituais e psicológicos de quem os mandou construir ou de quem lá viveu.593

No jogo compositivo da fachada, a casa de Alentém ostenta o maior número de janelas de sacada e de peitoril e aberturas rectangulares, que se apresentam na horizontal. Contudo, é na casa de Ronfe, com menos número de vãos, mas a mais cenográfica de todas, que deixamos perder o olhar, tal como na de Vila Verde com janelas e portas em número muito aproximado à anterior. Também podemos percorrer o olhar por outras: Bouça, Porto, Outeiro, Lama, Rio de Moinhos e Real. No andar térreo, as janelas podem ser de peitoril, molduradas e gradeadas; enquanto no andar nobre podem ser de sacada, de lintel curvílineo com chave ao centro, e molduradas. Contudo, encontrámos também janelas de sacada e janelas de peitoril, com ombreiras, peitoris e lintéis lisos, de que são exemplares as casas de Argonça e do Cáscere. Esta última residência exibe as janelas do rés-do-chão gradeadas.

A casa de Rio de Moinhos mostra janelas com cornija de ressalto molduradas, no primeiro andar, enquanto a casa da Tapada exibe no rés-do-chão janelas rectangulares, molduradas e gradeadas com segmentos côncavos e no andar nobre, janelas de sacada, molduradas, enquanto o torreão ostenta janelas de sacada e balaustrada. Configuração diferente, e única ostenta a casa de Ronfe: no rés-do-chão, a ladear o portal arquitravado, janelas de peitoril molduradas com lintel curvilíneo e painel, no primeiro andar, um janelão de sacada e lintel curvilíneo, com colunas embebidas e fecho, flanqueado por janelas de sacada molduradas e lintel curvilíneo. A ladear o pano central vêem-se quatro janelas de sacada de lintel curvilíneo e painel, molduradas.

Tropeçamos com outro caso singular, na casa de Vila Verde: uma janela de peitoril em forma de trifólio. As restantes residências ostentam o tipo de janela de: peitoril/sacada de lintel curvilíneo, moldurada.

De todas, é a casa de Alentém que exibe maior número de janelas na fachada - dez no rés-do-chão e onze no primeiro andar, enquanto Ronfe e Porto contam apenas sete e Bouça nove. Este número elevado e pouco usual de vãos na fachada vai permitir que as sequências rítmicas das janelas imprimam movimento em direcção ao centro da fachada, como se pode ver na casa de Ronfe, Alentém, Vila Verde, Porto e Bouça.

                  As janelas do rés-do-chão, geralmente são gradeadas, com grade simples, à espanhola ou tipo papo de rola.

As portadas são todas molduradas, algumas com lintéis curvilíneos, outras com cornijas de ressalto, e para completar o jogo decorativo das fachadas, podem ser rasgados óculos, frestas… Há óculos e frestas que apresentam formas mais elaboradas de perfis trabalhados, e algumas destas aberturas são de inspiração erudita, como é o caso das casas da Renda e de Ronfe.

Três casas ostentam portadas simples: Argonça, Cam e Cáscere. A portada da primeira é de cocheira. As casas de Alentém, Porto, Quinta, Renda, Seara, Valteiro e Vilela têm portadas molduradas com fecho ao centro. Com a configuração de portada com lintel curvilíneo e fecho ao centro, aparece a casa de Bouça, Pereiró, Tapada, Real e Vila Verde. Com diferentes gradações, mas enquadrado na mesma tipologia - portal arquitravado (com lintel curvilineo, com cornija e com coluna embebida), há três situações a reter: casa de Ronfe, Ribeiro e Valmesio. A primeira tem na fachada um portal arquitravado com lintel curvilíneo, chave ao centro e coluna embebida, enquanto a casa do Ribeiro apresenta portal arquitravado com cornija e fecho ao centro, e o último exibe, na capela, um portal arquitravado, também com cornija e painel superior.

________________________________

587 - QUINTÃO, José César Vasconcelos - Fachadas de Igrejas Portuguesas de Referente Clássico. Porto: Edição da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto. 2005, p. 34.

588 - QUINTÃO, José César Vasconcelos - o. c., p. 34.

 

 

Juste, Lama e Rio de Moinhos, exibem tipos de portais diferentes entre si. Na casa de Juste pode ver-se um portal com lintel bilobado de arcos crescentes, enquanto na segunda casa se aprecia uma portada tripla moldurada. O último portal é arquitravado com lintel de ressalto.

Normalmente, os óculos têm a forma redonda, enquanto as frestas e as aberturas podem ser quadrangulares, rectangulares ou tomarem a forma de losangos, sendo moldurados, gradeados e envidraçados.

Há óculos e frestas que apresentam formas mais elaboradas de perfis trabalhados, e algumas destas aberturas são de inspiração erudita, como é o caso das casas da Renda e de Ronfe.

 

 



publicado por José Carlos Silva às 12:32 | link do post | comentar

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