Domingo, 20 de Dezembro de 2009

1. 8. Pátio

 

O pátio é um elemento de extrema importância na história da arquitectura da casa nobre lousadense. Daí definir-se pátio como um “arquetipo sistemático y versátil, capaz de cobijar una grande cantidad de usos, formas, tamãnos, estilos y características diferentes.608

Encontrámos dois tipos de pátio que se enquadram nas características da casa nobre lousadense: interno ou interior e terreiro ou pátio exterior (de honra). 609 O pátio interno ou interior apresenta marcas distintas: Argonça, Cam, Bouça, Cáscere, Juste, Pereiró, Porto; enquanto Outeiro, Tapada, Real e Ronfe seguem o tipo definido por Jorge Henrique Pais da Silva e Margarida Calado, pátio é um “espaço aberto frente a um edifício,”610 também se podendo encontrar “no seu interior,611 sendo este lajeado, ladrilhado, cimentado ou ainda em terra batida.

O acesso ao pátio interior faz-se por um portal, como acontece nas casas de Pereiró e do Cam ou por uma porta de cocheira, como ocorre na casa de Argonça. A casa de habitação fica ao fundo, e tem sempre rés-do-chão e andar nobre. A fachada principal, está voltada para o exterior do pátio interior, sendo que o andar nobre, onde o proprietário reside, sobrepõe-se às dependências de serviço. Apresenta também um “aspecto de cidadela fechada, vedada a estranhos que ele aqu, toma, parece poder explicar-se fundamentalmente por razões histórico-culturais, como sobrevivência de uma remota forma que tinha em vista a defesa contra assaltos ou depredações. 612 Há, desta forma, um evidente desejo de recolhimento e de protecção. A casa, na verdade, na globalidade do seu conjunto edificado, configura um todo murado à entrada e até ao olhar de estranhos. O pátio interior é, assim, o ponto fulcral, o local vital, para onde converge a existência de toda a casa. Três são as casas que mais evidenciam este tipo de características: Argonça, Cam, Pereiró, que têm o pátio interior limitado pelo conjunto edificado apenas por um ou dois lados, sendo a parte sobrante tapado por um muro baixo.

Na primeira casa, o pátio é delimitado a Este, Oeste e Norte pelas fachadas das fachadas térreas das edificações do caseiro, cortes, etc; e a Sul pela fachada interior da fachada da casa principal.Fecha-o uma porta de cocheira. A segunda mostra um pátio tapado por portões a Este e a Oeste, e a Sul uma porta de cocheira. Enquanto na de Pereiró, vislumbra-se um pátio interior delimitado por fachadas, sendo fechado a Oeste por portão em ferro forjado e a Este por uma porta de cocheira. O pátio da casa de Cáscere resulta da planta em L. Apresenta-se fechado por muros a Norte e a Oeste, e pelas fachadas a Este e a Sul. A mesma configuração tem o da casa do Porto, pois também resulta de uma planta em L. É limitado pelas fachadas da construção primitiva, excepto a Este, onde o remate com a fachada interior da fachada mais recente, é feita - na zona do tanque - através de muro, de média altura. O pátio é vedado aravés de dois portões em ferro, dando estes seventia para os campos; e através de uma porta de cocheira, esta permite o acesso ao terreiro fronteiro à principal da casa do Porto. Na casa Juste, o pátio surge na rectaguarda da mesma. É fechado pelas fachadas do edifício a Sul e a Este - pelo portão -, e por muros a Norte e Oeste. Por último, a casa da Bouça exibe um pátio interior que permite o acesso à antiga edificação primitiva. É aberto, a Oeste.

No segundo caso, à volta do pátio interno ergue-se uma edificação, dispondo-se ao seu redor, tapando-o na sua totalidade. Como já referimos, é um espaço livre e aparece incorporado no conjunto edificado, sendo a parte murada normalmente, da altura, das fachadas do edifício que o delimita. São exemplos de casas edificadas à volta de um pátio interior: Outeiro, Tapada, Real e Ronfe.

O espaço de terra, plano e amplo, contíguo a uma casa é o terreiro ou o pátio exterior. Também pode ser definido como o “espaço aberto frente a um edifício (pátio de honra).613 Adoptando este conceito, e excluíndo a casa do Cam, todas as outras ostentam um terreiro ou pátio exterior, fronteiro à fachada principal, ideia que José Custódio da Silva preconiza: “não haver dúvidas da existência de um pátio frente ao corpo principal, (…).”614 Geralmente quadrangulares apresentam-se em terra batida, murados e fechados com portões de ferro forjado, fundido e em chapa, a que acedemos por alamedas ladeadas por frondosas árvores.

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600 - OLIVEIRA, Ernesto Veiga de, GALHANO, Fernando - o. c., p. 103.

601 - FAUVRELLE, Natália - o. c., p. 72.

602 - Informação dos proprietários das Casas da Bouça e do Outeiro. Ver pág. 109 e 111.

603 - AZEVEDO, Carlos de, - o. c., p. 51.  Cf. Torre: “Edificio forte fabricado em alguma parte para fe acolherem nelle do inimigo, e de lá o offenderem; hoje as que reftão fervem de prizões, cazas de armas, &c. e as que fe fazem fão para se porem finos junto ás Igrejas; nas Fortalezas, a principal, era a torre de menagem, a qual não entregava fenão a quem tiveffe direito de levantar a menagem da Fortaleza ao Capitão della.” BLUTEAU, Rafael - o. c., p. 469 - 470.

604 - AZEVEDO, Carlos de, -  o. c., p. 21. 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quadro N.º 25 – Tipologias de pátio da casa nobre do concelho de Lousada

 

Casa

 

Pátio

Argonça, Bouça, Cam, Cáscere, Juste, Pereiró, Porto, Outeiro, Tapada, Real e Ronfe

Pátio interior

Alentém, Argonça, Bouça, Cáscere, Juste, Lama, Outeiro, Pereiró, Porto, Quintã, Ribeiro, Rio de Moinhos, Real, Renda, Seara, Tapada, Valmesio, Valteiro, Vila Verde, Vilela

Terreiro, pátio exterior (pátio de honra)

 

 

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605 - Torre é um “corpo de edifício mais alto que largo de planta quadrangular.” SMITH, Edward Lucie - Dicionário de Termos de Arte. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1995, p. 340.

606 - Segundo o seu proprietário foi erguida no séc. XIX pelo seu avô.               

607 - Nesta torre, segundo os herdeiros desta casa, está a capela.

608 - http://www.ggili.com. Cf. HANEMAN, J. Th - Elementos de Composicion Arquitectónica. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, 1985, p. 40.

609 – “Espaço de plano efpaçofo.”BLUTEAU, Rafael - o. c., p. 455. Cf. É o espaço que “nos palácios e outros edifícios vai desde a entrada principal à escadaria.” MACHADO, José Pedro - Grande Dicionário da Língua Portuguesa. Lisboa: Editores Amigos do Livro, (Coord. José Pedro Machado), 1981, p. 390. No Brasil é a área “em frente  das casas grandes e nobres.” MACHADO, José Pedro - o. c., p. 390; Burben, Ernest - o. c., p. 256.

610 - SILVA, Jorge Henriques da, CALADO, Margarida - o. c., p. 279. Cf. Em 1789 também assim era considerado: “Pa’ teo é a área murada, e descoberta que eftá á entrada da cafa.” BLUTEAU, Rafael -o. c. - p. 170; OLIVEIRA, Ernesto Veiga de, GALHANO, Fernando - o. c. p. 39 e 103; Burben, Ernest - o. c., p. 256, p. 175.

611 - CHING, Francis D. K. - o. c., p. 85. Cf. vol. II. p. 82, SILVA, Jorge Henriques da, CALADO, Margarida - o. c., p. 279; Burben, Ernest - o. c., p. 256; TEIXEIRA, Luís Manuel - o. c., p. 175.

612 - Cf. OLIVEIRA, Ernesto Veiga de, GALHANO, Fernando - o. c. p. 39 e 103; Burben, Ernest - o. c., p. 256, p. 175.

613 - SILVA, Jorge Henrique Pais; CALADO, Margarida - o. c., p. 278.PEREIRA, José Fernandes - o. c., p. 176

 

 

 

 

 

 

 

 



publicado por José Carlos Silva às 14:54 | link do post | comentar

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