Sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

Lousada no século XVIII era um concelho dominado por uma elite de famílias nobres que ao longo da centúria moldando e forjando os factos e os acontecimentos, alimentando, fortalecendo e estreitando laços, aumentando domínios e fortunas através do casamento entre famílias. E acima de tudo mantendo privilégios durante décadas (capitão – mor e sargento – mor) na mesma família ou ramo de família. Assiste – se a este tipo de situações.

A nobreza domina em Lousada. O concelho no século XVIII não é um concelho perfeito. Só o será em 1842.

No final do século XIV, toda a propriedade rústica ou urbana de Lousada estava nas mãos de igrejas, de mosteiros e de Ordens Militares: Paço de Sousa, Bustelo, Pombeiro e Santo Tirso, os conventos de S. Bento entre Douro e Ave, Cete, Travanca, Arouca, Ferreira, Fonte Arcada Vilela, Mancelos, Freixo, Fonte Arcada, Vilela, o Hospital, os Gafos de Alfena, Lorvão e Tarouca. De princípio, muito singelamente, para depois o fazer com maior ou menor aparato ou grandeza, foram os nobres construindo e reedificando as suas casas.

Se tivermos o cuidado de percorrer com o olhar a paisagem edificada de Lousada ainda encontramos algumas dessas construções do século XVI de pé. O exemplo mais concreto e mais emblemático é, sem sombra para dúvidas, a casa de Juste, na freguesia do Torno. As demais são quase todas, ou todas, dos séculos XVIII (mesmo que uma outra tenha sido construída no século XVI, mas foi tão remexida que actualmente tem todas as características do século XVIII ou XIX, como é o caso da Casa de Alentém, construção que remonta ao século XVIII.).

É evidente que muitos destes nobres eram, antes de serem nobres, plebeus, lavradores ricos, que se enobreceram, mas outros já eram nobres ou pertenciam a famílias nobres, como os Borges Barretos, os Pintos, os Pachecos, os Soares de Moura, etc.

Mas a paisagem edificada no concelho de Lousada não era só casa nobre, era também igrejas, capelas, moinhos, pontes, etc.

 

 



publicado por José Carlos Silva às 20:44 | link do post | comentar

         Quem vem de Lousada, em direcção a Pias e chega ao lugar do Jogo vira à esquerda e cem metros depois torna a virar à direita, pouco mais de um quilómetro andado passamos pela capela de St.º Ovídio. Se seguirmos sempre e depois da bela ponte românica de Vilela vamos deparar, à nossa esquerda, volvidos uns duzentos metros com a majestosa e bela capela de S. Bartolomeu.

         Outrora a sua romaria dava brado na região, hoje já não se efectua. Os tempos e os homens mudaram, são outros.

         A capela de S. Bartolomeu pertenceu à casa Grande de Vilela até à Implantação de República. Não descortinei a data precisa em que tal aconteceu. Mas aquando da polémica que envolveu a Comissão de culto da capela de St.º Ovídio e a casa de Barrimau, pela posse da dita capela, na muita correspondência trocada nos jornais locais, aparece o excerto em que se afirma que uma certidão passada pelo chefe da Secretaria Privativa da Comissão Jurisdicional dos Bens Culturais que diz: “A Corporação encarregada do culto católico da freguesia do Salvador de Aveleda, districto e diocese do Porto pede a cedência em uso e administração,..., dos bens regulares: Primeiro, Igreja Paroquial com suas dependências e alfaias; segundo, Residência paroquial, quintais e devesa, Capela de S. Bartolomeu, no lugar de Vilela,...[1]

         Logo, foi depois de 5 de Outubro de 1910 que a capela de S. Bartolomeu deixou de ser particular e passou a ser pública.

         Sabe-se também que uma das imagens da capela de S. Bartolomeu foi enterrada, já que as imagens “que fossem encontradas em mau estado, ‘indecentemente pintadas ou envelhecidas’, eram mandadas enterrar nas igrêjas, afastadas das sepulturas dos defuntos, o que aconteceu em 1709, com uma imagem da capela de S. Bartolomeu, de Aveleda,...[2]

        

Algumas Considerações Artísticas.

 

         Foi mandada construir pelos senhores da casa Grande de Vilela, na primeira metade do séc. XVIII. Olha-se para ela e logo se vê aquele aspecto firme e sustentado do barroco, que o seu granito inspira e que o seu óculo confirma.

         A capela, formada por nave e capela - mor, sofreu várias intervenções de preservação e restauro (como é óbvio, telhado - as telhas não são os originais, as grossa paredes de granito já foram rebocadas, etc., etc.), mas a traça original foi mantida.

         É pois uma construção perfeitamente equilibrada em cantaria de junta fitada (não é cheia ou tomada), mas não pintada como é usual, ressalta o cimento e o granito.

         Olhando-a de frente, no seu alçado principal, deparamos com uma fachada granítica, em que as pilastras se elevam até ao entablamento e sustentam praticamente todo o peso do frontão clássico, este com timpano liso, sem qualquer tipo de decoração.

         Porta rectangular - principal acesso à capela - com lintel saliente, em forma de almofada e entre esta e o entablamento aí se encontra o oculo com ferro em quadrados e em vidro claro que amplifica a iluminação natural da capela, em dias de sol.

         Quem olha o oculo de perto vislumbra o que parece ser a imagem de Jesus Cristo na cruz. Tal imagem é única no universo das perto de trinta capelas em estudo.

         No cume do frontão uma cruz assente numa pequena base. O entablamento tem como remate uma pirâmide em cada um dos seus extremos.

         No alçado esquerdo, mais ao menos rente ao chão e com pouca altura e diminuta espessura, encontramos umas alminhas, muito bem conservadas e com um belo fresco, tendo por centro a figura do anjo Gabriel.

         No topo da capela, por detrás do altar, deparamos com a capela - mor, o seu belo retábulo com belas imagens e uma talha nacional (pode-se considerar), já que as suas colunas torsas, salomónicas, falam por si, já que estas também se envolvem com cachos de uvas e por anjos.

         Ao centro do altar encontra-se a imagem de S. Bartolomeu. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] Ferreira, Alfredo J., A Capela de St.º Ovídio em Aveleda, jornal de Lousada; n.º 1160, 30 de Agosto de 1928, p. 1.

[2] Alves, Natália do Carmo M. M. F., A Arte da Talha no Porto na época barroca, 1986, p.43.



publicado por José Carlos Silva às 08:58 | link do post | comentar

 

         O povo chama-lhe capela de St.º Ovídio, e a sua invocação, o seu orago é St.º Ovídio. É que na capela de St.º Ovídio, no lugar de Mourinho, está no seu altar a imagem do St.º Ovídio, o santo venerado pelos habitantes de Aveleda e que tem romaria em sua honra em 9 de Agosto. Esta não é a original, a primitiva capela.

         Mas houve mesmo uma capela em honra de St.º Ovídio, pertença da casa de Barrimau ou de St.º Ovídio e que por tricas políticas, aquando e depois da Implantação da República, acabou por ser demolida, e esta desde a década de vinte se passou a denominar capela de St.º Ovídio pelo povo de Aveleda e por todos os romeiros que demandam a Aveleda todos os anos, e em Agosto, no seu dia nove.

         Mas a capela de St.º Ovídio tem peripécias dignas de serem referidas, mesmo que sucintamente.

         É durante a década de vinte que a polémica estala quando os representantes da Junta de Aveleda querem que a capela de St.º Ovídio passe a ser pública. A isso vão-se opor ferozmente os seus donos, os fidalgos da casa de Barrimau ou de St.º Ovídio. Os republicanos ainda nesta época tentavam o arrolamento dos bens da Igreja. Aliás é a partir de 1910 que a capela de S. Bartolomeu se torna pública.

         Foi a 26 de Julho de 1927 que “veio de novo o Presidente da Corporação pedir mais a capela de St.º Ovídio.”[1]

         A capela de St.º Ovídio foi sempre particular “construída em terreno da Quinta de St.º Ovídio, dentro dela e em terreno demarcado e murado da Quinta.”[2]

         Guerras políticas e pessoais fizeram correr muita tinta em dois periódicos da época: Jornal de Lousada e Vida Nova.

         No seu n.º 1043 rezava o Jornal de Lousada (republicano) que “foi arrolada pela autoridade competente a célebre capela de St.º Ovídio, situada na freguesia deste concelho,... o último acto será,... a notícia de ter sido publicado o despacho que, oficialmente, considera a capela do milagroso St.º Ovídio propriedade exclusiva, in secula seculorum da freguesia do muito venerado S. Salvador de Aveleda. Podemos considerar a capela de St.º Ovídio como a praça de guerra de Aveleda.” [3]

         Apesar dos esforços dos fidalgos da casa de Barrimau ou St.º Ovídio, a capela de St.º Ovídio é entregue à comissão de culto por “Despacho de 15 de Julho findo, foi mandada entregar à Comissão do culto da freguesia de Aveleda, dêste concelho, entre outros bens, a capela de St.º Ovídio...”[4]

         Só em 1932 é que a capela é restituída à casa de St.º Ovídio, em definitivo, segundo o Heraldo de 27/02/32 e o Vida Nova de 5 de Março de 1932, é que publica o Despacho final sobre esta polémica. O Jornal de Lousada nem, se lhe refere.

         A última indicação do Jornal de Lousada é a de que a capela de St.º Ovídio foi demolida, ano de 1932. Actualmente a imagem de St.º Ovídio está na capela de St.º Ovídio, ali junto à igreja.

         A capela de St.º Ovídio seria reconstruída no lugar de Mourinho, já que segundo o fidalgo da casa de Barrimau “Demoli a capela que era minha, para a reconstruir num outro local...”[5] , pressupõe-se no lugar do Mourinho, já que não encontrei outra documentação que provasse o contrário.

         A dita capela de St.º Ovídio que se situa no lugar de Mourinho é, possivelmente, datada dos finais do séc. XVII, já que “Há 155 anos que os antepassados da Illustre família da casa de St.º Ovídio...requeram...licença para colocar na capela um confessionário”[6] , isto foi escrito no Jornal Vida Nova em 1928. O pedido para o confessionário foi feito em 1704. Ora a capela já anteriormente estava erigida. Daí situar-se entre os finais do séc. XVII, a sua construção.

         Todos a denominam capela de St.º Ovídio, mas esta capela tem por invocação N. Sr.ª do Rosário. E só é capela de St.º Ovídio desde que a antiga capela deste Santo foi demolida.

 

Algumas Considerações Artísticas.

 

         A capela, formada por nave e capela - mor. Altar com retábulo em talha nacional, tendo ao centro em nicho ricamente bem elaborado, N. Sr.ª do Rosário e não St.º Ovídio, já que este está em “casa” emprestada.

         Do lado direito e do lado esquerdo tem pequenos altares - aplicações posteriores - com sanefas salientes de um estilo joanino.

         Capela recheada de belas e ricas imagens.

         Do lado esquerdo tem uma sacristia, fruto de intervenções posteriores (séc. XIX e XX), mas que não consegui datar com precisão.

         Quem olha para esta capela de frente depara com uma pequena galilé em quatro pequenas colunas (frontais) e outras duas adossadas à fachada principal e primitiva, estas seis colunas sustentam uma cobertura de três águas e assentam por sua vez numa base murada que formada por um quadrado com uma abertura para um portão de ferro, a precisar de pintura. Abrindo esse portão, depara-se com um portal rectangular de madeira que dá acesso ao interior da capela.

         Nota-se no telhado da galilé que este já sofreu várias intervenções.

         Na parte central da fachada principal - na linha imaginária do início do frontão - encontra-se uma abertura rectangular, preenchida com umas quadrículas em ferro, quadrículas revestidas com vidro martelado, baço. No cume do frontão encontramos uma cruz em granito, e em cada ponto oposto, a culminar o entablamento deparamos com pirâmides ou o remate do entablamento com pirâmides.

         Do lado direito temos uma tosca sineira, num arranjo arquitectónico muito peculiar - uma coluna de pedra que não termina o entablamento e sino embutido no entablamento e na coluna erigida, ficando preso a um e a outro e desempenhando à mesma a sua função.

         Olhando com mais pormenor reparamos que a capela da St.º Ovídio tem uma galilé, encimada por frontão clássico. É uma equilibrada construção em cantaria de juntas tomadas, o que lhe dá alguma plasticidade, e na cornija, há um igual esquema arquitectónico. Os remates são feitos por pirâmides de bom recorte.

         No alçado direito, além da torre sineira, há um portal rectangular de acesso ao Templo, assim como uma fresta também rectangular que tem como função iluminar de forma  natural o altar - mor.

         No seu alçado esquerdo deparamos com um acrescento - sacristia - que também dá acesso ao Templo.

         No alçado sul, para além da cruz que encima o cume do frontão, encontramos ainda as duas pirâmides que rematam o entablamento.

         Esta capela foi toda ela rebocada, durante muitos anos, só que numa das últimas intervenções (não consegui obter a data) o reboco desapareceu, estando agora a pedra lisa e limpa e as juntas tomadas ou cheias.

         É uma bela capela do séc. XVIII - em princípio - com um interior que artisticamente vale a pena vislumbrar.

 

 



[1] Ferreira, Alfredo J.; A Capela de St.º Ovídio em Aveleda, Jornal de Lousada, n.º 1160, 30 de Agosto de 1928, p. 1.

[2] Idem.

[3]  A. J. F., A Praça de Guerra de Aveleda, Jornal de Lousada, 12 de Novembro de 1927, p. 1.

[4] Jornal de Lousada, Capela de St.º Ovídio, Agosto de 1931 p. 2.

[5] Jornal Vida Nova, 5 de Março de 1920, n.º 560, p. 1.

[6] A Capela de St.º Ovídio, Jornal Vida Nova, 6 de Outubro de 1928, n.º473, p.1 e 2.



publicado por José Carlos Silva às 08:56 | link do post | comentar

 

         Trata-se de uma bela e preciosa relíquia histórica e que muitas vilas destruíram e actualmente gostariam de certeza absoluta possuir.

 

         Da plataforma sai uma coluna salamonica de granito de forte enrolamento, bem vincado, os torsos assentes: o desbaste menos regular, o fuste vai terminar o torcido num remate cilíndrico do capitel simples. Em cima assenta o remate (tronco piramidal), de secção quadrada, invertido com uma das molduras trabalhadas. Nos centros da face superior vêem-se as calhas dos ferros, que suportaram as correntes das argolas.

SILVA, José Carlos - As Capelas Públicas de Lousada, U. Portucalense, 2007

 



publicado por José Carlos Silva às 08:46 | link do post | comentar

Quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

Encontra-se adossado a meio do muro do topo nascente do Cemitério, sito no lugar da Igreja.

É propriedade da Junta de Freguesia de Alvarenga.

Construído em granito no ano de 1992.

Está em muito bom estado de conservação.

Tem uma cruz latina e quadrangular. A haste vertical é muito mais alongada que a horizontal. A cruz assenta no dado que é cúbico.

Na cruz está colocado um crucifixo em metal.

A plataforma é quadrangular e tem dois degraus.

 


SILVA, Leonel Vieira da - In Cruzeiros de Lousada



publicado por José Carlos Silva às 20:55 | link do post | comentar

Situa-se no lugar da Igreja, num incaracterístico local sobranceiro, delimitado e a cem metros da Igreja matriz.

É propriedade da Igreja Católica.

Construído em granito.

Desconhece-se a data da sua construção.

Está em bom estado de conservação.

É um vetusto Cruzeiro que se pode confundir com um Cruzeiro de via-crusis. É um Cruzeiro Paroquial e tem função processional. A procissão anda à sua volta e depois recolhe à Igreja.

Tem uma cruz latina, quadrangular, estriada e assenta na cornija do pedestal. A haste vertical é mais comprida que a horizontal.

Além da cornija, o pedestal é ainda composto pelo dado cúbico que está praticamente soterrado.

 

SILVA, Leonel Vieira da - In Cruzeiros de Lousada

 



publicado por José Carlos Silva às 20:53 | link do post | comentar

1. 10. Pedra de Armas

 

A pedra de armas, nem sempre presente, na fachada da casa, capela e torre, “personifica não só um estatuto social como privilégios concedidos directamente pela realeza.”627 E tem um carácter eterno até pela escolha do próprio material, o granito, testemunho “quase perpétuo da linhagem dos seus proprietários que deixam na rocha a genealogia da família e as respectivas alianças.628 A esta pedra é associada a própria casa que, não raro, fica também conhecida pelo nome da família que a habita há várias gerações: “Exibição de posição e poder, o escudo assume agora um valor de memória de uma sociedade e uma forma de viver que se extinguiu.629

Com o séc. XVIII assistimos ao aparecimento de frontões nas fachadas para exibir a pedra de armas, geralmente ricos de decoração no paquife e com escudo de forma abaulada.

As casas de Vila Verde, da Quintã e da Lama exibem a respectiva pedra de armas na fachada principal da capela. No frontão que coroa a fachada principal, aparecem cravadas as pedras de armas nas residências de Alentém, Ronfe, Bouça e Porto. Enquanto a pedra de armas da casa de Juste encima a cornija da fachada Oeste e em Rio de Moinhos está colocada no segundo andar do torreão da fachada principal. As armas de S. Francisco, na casa do Outeiro, vislumbram-se na face da torre, na fachada Sul.

A pedra de armas da capela da casa da Lama encima o portal, enquanto o da Quintã está colocado no centro da empena; e o de Vila Verde aparece adossado ao painel, entre dois óculos. Todos estão colocados no centro do frontão, com a particularidade de Juste apresentar duas pedras sobrepostas; e de em Rio de Moinhos estar colocado entre duas janelas de lintel curvilíneo, molduradas. As armas que se acham na torre da casa do Outeiro são de S. Francisco.

 

 

Quadro N.º 31 - Tipologias da pedra de armas da casa nobre do concelho de Lousada

Casa

Tipologia

 

Lama, Quintã e Vila Verde

 

Na frontaria da capela

Alentém, Ronfe, Bouça e Porto

No tímpano do frontão

Juste

Coroa a cornija da fachada principal

Rio Moinhos

Na frontaria da casa

Outeiro

Na face da torre

 

 

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627 - Eram nobilitados facilmente os senhores de casas nobres e com vastas terras, com grandes quintas, em Portugal, tal como no Brasil, os senhores de engenho, já que deles “ só se fala com consideração.” PIRES, Fernando Tasso Frogosso - Fazendas: as grandes casas rurais do Brasil. Nova Iorque [etc]: Abbeville Press Publishers, 1995, p. 11. Cit. por FAUVRELLE, Natália - o. c., p. 78.

 



publicado por José Carlos Silva às 20:47 | link do post | comentar

Também na frontaria das capelas aparecem aberturas mais pequenas, com diferentes contornos: óculos em forma de polifólio, hexafólio, quadrifólio, círculo, losango, como se encontram nas casas de Real, Bouça e Lama, Juste, Valmesio, Vila Verde e Alentém, respectivamente.

 

 

Quadro N.º 28 - Janelas das capelas da casa nobre do concelho de Lousada

 

Capela

 

Janela

Cáscere, Pereiró, Valteiro e Porto

Peitoril

Rio Moinhos

 

 

Janela moldurada de peitoril de lintel curvilíneo

 Janela de peitoril moldurada com painel e cornija de pequeno ressalto

 

 

Os óculos são todos moldurados, gradeados e envidraçados, exceptuando os da capela da casa da Tapada, que evidencia um óculo com a forma de vitral. Já as aberturas são, normalmente, rectangulares, rasgadas vertical ou horizontalmente, assim como gradeadas e envidraçadas, de que são exemplo as casas de Pereiró e Rio de Moinhos. Esta última apresenta um tipo de abertura distinto: rectangular com lintel curvilíneo, moldurada e gradeada.

 

 

Quadro N.º 29 - Óculos das capelas da casa nobre do concelho de Lousada

 

Capela

 

Óculos

Real

Polifólio

Bouça

Hexafólio

Bouça e Lama

 Quadrifólio

Juste, Valmesio e Vila Verde

Círculo

Alentém e Vila Verde

Losango

 

Os frontões e as empenas das capelas têm uma configuração triangular, excepção para o frontão da Lama que é constituído por duas volutas; e normalmente são coroados por cruzes.

As cruzes podem ser latinas, como as das capelas das casas do Cam, Cáscere, Juste, Pereiró, Seara e Quintã; trilobadas, assim as podemos ver em Valmesio e Vila Verde; e octogonais, nas da Bouça, Lama e Outeiro. A capela do Valteiro exibe uma cruz trifólia; a do Porto é granada; e embolada é a de Real. De Cristo e Nascimento de Jesus, aparecem nas de Rio de Moinhos e Alentém, respectivamente; por último, a do Ribeiro é do tipo flor-de-lis.

 

 

Quadro N.º 30 - Cruzes das capelas  da casa nobre  do concelho de Lousada

 

Capela

 

Cruz

Alentém

Cruz Raiada

Cam, Cáscere, Juste, Pereiró, Seara e Quintã

Latina

Valmesio e Vila Verde

Trilobada

Bouça, Lama e Outeiro

Octogonal

Porto

Granada

Rio de Moinhos

De Cristo

Real

Embolada

Ribeiro

Flor-de-Lis

Valteiro

Trifólia

 

As pilastras são imprescindíveis, na casa ou capela, pois consolidam os cunhais, dividem os panos em secções, criando efeitos decorativos, e constantemente ajudam a definir os vãos de porta, sendo nestes casos ressaltados.

Pináculos, pirâmides, fogaréus e urnas fechadas são os elementos arquitectónicos que rematam as pilastras das capelas das casas nobres lousadenses. Três são as capelas que apresentam pináculos: Alentém, Cáscere e Quintã; enquanto urnas fechadas coroam as da Bouça, Juste, Rio de Moinhos, Real, Valmesio, Valteiro e Vila Verde; nas capelas do Outeiro e da Seara aparecem pirâmides triangulares. Na do Porto e Tapada, surgem fogaréus estriados e urnas de fogaréus, respectivamente; e na do Ribeiro, figuras de convite.

 

 



publicado por José Carlos Silva às 20:46 | link do post | comentar

 

 

Quadro N.º 26 - Relação entre ambas as construções no concelho de Lousada

 

 Isenta de capela

 

Com capela integrada

 

Com capela destacada

Argonça e Renda

 

Juste e Rio de Moinhos

 

 

 

Vilela, Seara, Vila Verde, Tapada, Cáscere, Valteiro, Lama, Real, Valmesio, Porto, Pereiró, Outeiro, Bouça e Alentém

 

 

Classificamos as portadas das capelas em oito tipologias: três capelas exibem portadas molduradas, como é o caso de Alentém, Vilela e Juste, enquanto nas da Bouça e Ribeiro se acrescentou à moldura o lintel curvilíneo; e na do Outeiro adiu-se, a tudo isto, o frontão interrompido. As portadas das capelas da Quintã e da Seara são dissemelhantes num só pormenor: na primeira a portada é arquitravada e coroada com frontão interrompido por flor-de-lis, enquanto na segunda, moldurada com frontão interrompido por flor-de-lis. A diferença reside no moldurado ou no arquitravado. As sobrantes: Real e Rio Moinhos, mostram tipologias distintas, expondo a primeira portada com cornija, painel superior coroado por frontão interrompido. E a segunda portada arquitravada com lintel curvilíneo, com fecho ao centro e cornija de pequeno ressalto.

 

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615 - FAUVRELLE, Natália -  o. c., p. 76.

616 - Foram os reis suevos que as introduziram, segundo o P.e João Baptista de Castro, o. c., p.164. Cit. por  FAUVRELLE, Natália - o. c., p. 78.

617 - ROCHA, Manuel Joaquim Moreira da - o. c., p. 57.

618 - ROCHA, Manuel Joaquim Moreira da - o. c., p. 57.

619 - ROCHA, Manuel Joaquim Moreira da - o. c., p. 57.

A capela de Rio Moinhos apresenta dois tipos de janelas: uma moldurada de peitoril e lintel curvilíneo e outra de peitoril moldurada com painel e cornija de pequeno ressalto.

Quatro capelas exibem janelas de peitoril, na fachada principal. São elas: Cáscere, Pereiró, Valteiro e Porto; e na fachada da sacristia: Tapada e Outeiro. Nas restantes não há janelas. Estas, normalmente, apresentam moldura e grade.

 

 

 

Quadro N.º 27 - Portadas das capelas da casa nobre do  concelho de Lousada

 

Capela

 

Portada

Alentém, Vilela e Juste

Moldurado

 

Lama, Valmesio e Valteiro

Arquitravado, com cornija e painel superior

Bouça e Ribeiro

 

 

Portal moldurado com lintel curvilíneo

Real

 

Portal com cornija, painel superior coroado por frontão interrompido

Quintã

 

Portal arquitravado com frontão interrompido por flor-de-lis

Rio de Moinhos

Portal arquitravado com lintel curvilíneo, com fecho ao centro e cornija de pequeno ressalto

Outeiro

Portal moldurado com lintel e frontão interrompido

Seara

Portal moldurado coroado com frontão interrompido por flor-de-lis

 

 

________________________________

 

620 - ROCHA, Manuel Joaquim Moreira da - o. c. , p. 57.

621 - ROCHA, Manuel Joaquim Moreira da - o. c. , p. 57.

622 - Esta importância foi enfatizada por todos, mas principalmente, por aqueles que ficaram conhecidos como “os brasileiros”, e para quem a presença da capela é tão valorativa que os melhores materiais são empregues neste edifício. FAUVRELLE, Natália - o. c., p. 78.

623- ROCHA - Manuel Joaquim Moreira da - o. c., p. 60

624 - ROCHA - Manuel Joaquim Moreira da - o. c., p. 60.

625 - STOOP, Anne - o. c., p. 11.

626 - AZEVEDO, Carlos de - o. c., p. 81.

 



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1. 9. Capela

 

            Em termos estruturais a casa nobre é igualmente um espaço de representação, sendo marcada por linguagens intemporais. Passando de geração em geração, a habitação é “uma marca de estabilidade social, inerente a uma sociedade que diz não à mudança ou a tenta encobrir diariamente com valores tradicionais. Este mesmo valor de perpetuidade, está patente em elementos simbólicos da casa, como a capela e

a pedra de armas.615 Daí o enraizamento da casa nobre e o poder que a casa nobre, inserida numa quinta ou não, nos traduz, nos transmite, saírem reforçados pela presença de uma capela que, “em tempos mais remotos, era um privilégio exclusivamente real, só muito tardiamente alargado às famílias nobres.”616

Do século XVI em diante assistimos ao fenómeno da instituição de capelas junto das habitações, o que se explica quer pela religiosidade, pois eram muitas vezes fruto de uma promessa, quer pela importância social/simbólica que transmitiam.

A arte religiosa traz consigo uma “carga simbólica e metafórica significativa da afirmação de valores de prestígio,617 e a capela é precisamente encarada como um “símbolo de poder e de prestígio.”618 Acresce que não estava ao alcance de qualquer um instituir uma capela, pois era necessário ter uma situação financeira invejável para proceder à sua edificação, adquirir mobiliário (retábulo de talha, imaginária e alfaias), e garantir os bens que ficariam vinculados ao sustento da mesma.

A grande maioria das capelas, em estudo, deverá ter sido edificada na primeira metade do século XVIII, com raríssimas excepções; outras foram levantadas na segunda metade, como aconteceu com a capela da Casa da Lama, ou já no século XIX, como ocorreu com a capela da casa do Cáscere.

Todos os pedidos para fundar uma nova capela foram processos unifamiliares que “pretenderam dotar a sua residência permanente ou sazonal com estruturas que possibilitassem o encontro do agregado com o sagrado, embora, e não em poucos casos, o requerente justificasse a necessidade dessa capela para saldar expressões devocionais próprias, dos seus criados, caseiros e outros serviçais, e até da população que vivia nas imediações da Quinta.619

 

________________________________

614 - SILVA, José Custódio Vieira da - o. c., p. 33.

De resto, as Constituições Sinodais do Porto esclareciam que “as capelas deveriam possuir porta aberta para o espaço público, sempre ficando salvaguardada a fruição da população em geral.620 E as motivações para fundar uma capela resumem-se a “ três linhas de força que os fundadores de capelas particulares jamais esquecem na sua pretensão junto do bispo, podendo as três figurar no mesmo pedido.621

A primeira, remete para a dignificação, e esta é invocada por já possuírem casa nobre, e quererem dotar o complexo de capela para assim valorizarem a Quinta;622 a segunda, é “um acto devocional”;623 a terceira, de comodidade, ou de procura de melhores condições físicas para que o requerente e a sua família pudessem assistir com mais conforto à missa. A distância da casa que se pretende dotar de capela à igreja, e a deficiente rede de comunicações existente entre ambas toma forma de apelo, que se repete amiudadamente nos processos. Muitas vezes "alude-se aos problemas inerentes ao mau tempo - chuva, calor e inundações - que impedem a deslocação para assistir às celebrações eucarísticas.”624 .

A capela podia ser levantada por forma a dar seguimento à fachada da casa, comunicando com o seu interior através da tribuna, da qual os senhores da residência assistiam às cerimónias religiosas, ficando o corpo da capela para os serviçais, criados e povo. São deste modelo exemplos as casas de Rio de Moinhos, Porto, Juste, Valteiro, Ribeiro, Real, Alentém, Valmesio, Outeiro, Bouça, Lama e Cáscere. Esta tribuna encontra-se vulgarmente por cima da entrada. A existência deste elemento tem a ver com o tamanho das capelas, na sua maioria de pequena a média dimensão; quando a capela é destacada da casa, não é construída a tribuna.625

É na centúria de setecentos que surge o tipo de casa que integra a capela na fachada e que a questão da casa e capela se resolve, desta vez estabelecendo um padrão de casa tipicamente português, quando a fachada apresenta “maior simetria,626 oportunidade para integrar a capela num dos extremos.

Na análise da relação entre ambas as construções, só duas casas estão isentas de capela: Argonça e Renda; cinco capelas estão destacadas: a de Vilela, paralela e no início da fachada Este; a da Seara, alinhada com a fachada principal, a Sul; a de Vila Verde, defronte para a fachada principal, virada a Oeste; a do Cam, à direita da fachada Este; e a da Tapada, à direita da fachada Sul. Mas temos também capelas integradas nas fachadas, como as de Juste e de Rio de Moinhos, que formam um ângulo recto, estando as duas situadas a Norte; as capelas da casa do Cáscere, do Valteiro, Pereiró e Outeiro rompem a cornija do lado direito da fachada; do lado esquerdo, ficam as do Ribeiro, da Lama, de Real, de Valmesio e do Porto - finalmente as capelas das casas da Bouça e de Alentém, situam-se a Oeste da fachada principal. Feita esta leitura, impõe-se uma outra: a das fachadas. Só cinco das capelas estão integradas na fachada: Cáscere, Cam, Pereiró, Porto e Valteiro, acompanhando a composição da casa e repetindo os seus elementos - portas e janelas.

 



publicado por José Carlos Silva às 20:43 | link do post | comentar

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