Quarta-feira, 19 de Agosto de 2009

José Carlos Silva*

Preliminares

Em 1909 era Procurador Régio, em Lousada, o Dr. Alberto Thomaz David. Este vai contestar uma deliberação - de 8 de Julho de 1893 - da Câmara de Lousada, então presidida pelo ilustre Dr. Camilo Alves Teixeira, que determinava: “pôr á disposição do poder judicial dois quartos no rez-do-chão do edificio do tribunal impondo porém a condição de que os presos que se aproveitassem de tal regalia contribuíssem com a quantia de 200 reis para o cofre do município.” – (Ver Jornal de Lousada, 2 de Janeiro de 1910, n.º 126, p. 2). É bom recordar que os calabouços de Lousada se situavam nos fundos da Câmara, e a ter fé nos relatos da época não era local muito aconselhável.

O Procurador Régio vai contestar, precisamente, esta disposição camarária, a de 1893. Rebenta de imediato a bernarda. Instala-se a polémica. O caso torna-se público e termina na barra do tribunal.

José Teixeira da Mota, à época, Administrador Interino do concelho, demite-se na sequência de toda esta celeuma, mas continua a travar renhida e salutar luta, nas páginas do “Jornal de Louzada”, em prol da verdade – como era seu timbre.

O Jornal de Louzada vai ser, pois, o local privilegiado para se colocarem razões e argumentos de diversa ordem - ora com a razão, ora com o coração -, a roçar o picaresco ou mesmo indo de encontro à subjectividade jocosa de uns versos dos Reis Magos. Estes últimos, os versos dos Reis Magos, ao que parece, são a causa e o motivo para a ida a tribunal do “Jornal de Louzada” e do seu conceituado e ilustre director: José Teixeira da Mota.

Toda a polémica é encerrada em duas históricas audiências: um e dois de Janeiro de 1910.

O Julgamento

No dia 1 de Janeiro de 1910 a Vila de Lousada parou para assistir ao julgamento do “Jornal de Louzada”. Coube ao seu director honrar o seu bom nome. Apareceu ao tribunal de Lousada ladeado por um leque de insignes figuras desta terra que o defenderam com amizade, brio e galhardia: José Freire da Silva Neto (Presidente da Câmara); Dr. Joaquim Moura (Vice – Presidente), Jaime Correia (Vereador); Alberto Quintela); Major Manuel Camelo; Dr. Manuel Elisário; Padre José da Cunha Gonçalves (primeira testemunha de defesa); Dr. Joaquim Hermano (segunda testemunha) e tenente – coronel Feijó (Terceira testemunha de defesa). Foi seu advogado de defesa, o distinto jurista: Dr. Camilo Alves Teixeira.

Cada uma das partes litigantes esgrimiu os seus argumentos, mas a balança da justiça cedo deu sinais de pender a favor do “Jornal de Louzada” e de José Teixeira da Mota.

A leitura da sentença ficou adiada para o dia 2 de Janeiro, dado que o Juiz, Dr. Antero Moreira, tinha sido acometido de uma súbita e repentina indisposição e tinha-lhe sido de todo impossível estar presente no dia da pretérita audiência.

Com o título: “O nosso julgamento” descreve, minuciosamente, o “Jornal de Louzada” de 2 de Janeiro de 1910, N.º 126, segunda página, as peripécias de todo o julgamento, da leitura da sentença e do triunfo portentoso de José Teixeira da Mota.

Não vamos fazer a descrição minuciosa do julgamento. Vamos, pois, sem delongas, à parte que mais nos interessa e que é assaz curiosa.

Pombas, Flores e Cumprimentos Para Um Triunfador

No dia 2 de Janeiro de 1910 a Vila de Lousada estava expectante! Dez horas: momento marcado para dar por finda tamanha celeuma, que só terminará ao meio-dia.

Conta o “Jornal de Louzada” que “Precisamente às 10 horas do dia 2 entrava para o gabinete o meretissimo juiz, o tribunal collectivo a lavrar o accordão que foi lido ao meio dia, julgando improcedente e não provada a acusação, e, portanto, absolvendo-nos. N’esta ocasião recebeu o nosso director, cumprimentos, de grande numero de amigos seus, felicitando-o calorosa e enthusiasticamente pela sentença que a seu favor acabava de ser proferida.

Á porta do tribunal era, o mesmo nosso director, esperado por um grupo de camponezas que o cobriram de flores e acompanharam até á casa da sua residencia onde continuou a receber cumprimentos dos amigos que assim, aproveitaram a ocasião para lhe manifestar quanto o estimam.

Ao findar a leitura do acórdão foram lançadas ao ar, dentro do tribunal algumas pombas com laços de seda ao pescoço onde se lia: Viva o «Jornal de Louzada»; Vivam os colaboradores do «Jornal de Louzada», etc, etc. Alguns desses laços foram mais tarde entregues na redacção d’este Jornal.”

* Mestre em História de Arte em Portugal

 

 



publicado por José Carlos Silva às 22:08 | link do post

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